Pelos olhos de Orides


Pelos olhos de Orides, publicado pela editora Hedra em 2026, foi um dos livros infantojuvenis mais vendidos na 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), edição na qual a poeta Orides Fontela foi a grande homenageada. Imagem: Acervo pessoal. Hedra/divulgação.

 

Pelo olhos de Orides: quando a poesia nos olha

É muito provável que os leitores da poesia de Orides Fontela jamais imaginariam que parte de seus 200 e poucos poemas poderiam ganhar uma leitura… infantojuvenil!

É  isso mesmo que você, leitor, está lendo: um livro infantojuvenil. A revelação é tão surpreendente que, no posfácio, Odilon Moraes – um dos escritores brasileiros que mais conhece esse universo – começa o texto dizendo: “Este não é um livro para crianças, mas este é um livro para crianças!”

Ora, a tensão já se impõe nessa dualidade de ser e não ser para crianças. No entanto, quando começamos a ler os vinte poemas selecionados pelo poeta e crítico Augusto Massi, idealizador do projeto, a leitura de alguns poemas parece ganhar outras interpretações, mas não necessariamente como poemas infantis ao estilo de autores clássicos do gênero, como Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, José Paulo Paes, entre outros. “Herança”, um dos belos poemas de Orides, traz, na sua composição, lembranças (toalha, flauta, alicate, martelo, lenço) consideradas peças conhecidas, e que um leitor mirim poderia compreender perfeitamente ao lê-lo. Poderia, até mesmo, dizer sobre objetos, peças que, porventura, tenham na sua casa, como alguma lembrança familiar.

 

...“Nuvem” é um delicadíssimo poema, que parece ter nascido daqueles olhares imaginários, que só as crianças costumam ver nas formas das nuvens.

 

Outros poemas, que configuram a tradição da poesia infantil com animais, flores, estrelas, nuvens, estão presentes na antologia. Aliás, “Nuvem” é um delicadíssimo poema, que parece ter nascido daqueles olhares imaginários, que só as crianças costumam ver nas formas das nuvens. Um poema pode ser uma maneira de perguntar, sem, necessariamente, ter uma resposta exata. Então lá se vai a “Nuvem Asa sem pássaro/se vai ou/vem/se vem ou/vai/quem sabe?”.

Poema “Nuvem”. Imagem: Acervo pessoal.

No universo das crianças ou dos poetas, nuvens podem ser pássaros sem asa. Afinal, elas voam também de forma “leve vazia branca”. Há, ainda, os gatos, tão rápidos que desaparecem nas noites: “Os gatos/ secretos/ saltam// somem no abstrato/escuro” (Gatos). Ou as formas de um “Caramujo”: “A superfície/ suave convexa/ não revela seu dentro:/ apenas brilha”, ou do trabalho do “João”, operário, que constrói sua casa, o “João de Barro”: “De barro/ o operário/ e a casa// O pássaro-operário/ madruga:/ construir a/ casa/ construir o/ canto/ ganhar – construir /– o dia”.

Lembremos aqui o forte poema “O operário em construção”, de Vinicius de Moraes. Talvez pudéssemos dizer que a poeta Orides tinha olhos de criança, sem perder de vista a dura realidade do mundo. A poesia pode ser a infância revisitada por outros olhares, que não se perdem só em fantasias. Além desses poemas, é muito provável que outros menos diretos surpreendam e ganhem certos entendimentos dos leitores mirins, como em “Balada”.

Poema “Gatos”. Imagem: Acervo pessoal.

Mas se, porventura, algumas coisas escaparem, o que é natural, ficaremos pelos olhos de Cynthia Cruttenden, que, com retinas livres, ilustrou com delicadeza, suavidade, com cores vivas, flutuantes, que, às vezes, lembra as colagens de Henri Matisse. Assim, sem se fixar nos poemas de maneira literal, o que já é uma percepção sensível, Cynthia criou imagens que certamente vão encantar os pequenos e, também, os grandes.

Poema “Girassol”. Imagem: Acervo pessoal.

Quem sabe, depois desse livro, a poesia de Orides, que já era admirada por um círculo ainda estreito, possa ganhar mais leitores de todas as idades. O que vale dizer é que, pelos olhos de Orides, pelos olhos do editor Augusto Massi, pelos olhos da ilustradora Cynthia, e, claro, da poesia, todos poderão admirar este belo livro.

 

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Notas:

Conforme buscas realizadas pela nossa redação, a foto da capa (Orides Fontela com dois gatos em sua residência, em São Paulo) é atribuída ao fotógrafo Eduardo Simões para uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo nos anos 1990, posteriormente republicada e catalogada no acervo do Instituto Moreira Salles / IMS. Consta também a indicação de autoria de Juan Esteves (Folhapress). Portanto, empenhamos todos os esforços para fornecer ao leitor os devidos créditos da imagem.

A foto de capa foi estilizada a partir de ilustrações do livro e do retrato da poeta, destacando visualmente o título da obra, também utilizado nesta resenha.

Conheça mais sobre a vida e a obra de Orides Fontela, clicando nos links em destaque abaixo:

Arquivo memorial Orides Fontela Mulheres de São João

https://oridesfontela.com.br

Formada pela USP, poeta Orides Fontela é homenageada na Flip: Programa da Rádio USP traz trecho de entrevista de 1996 em que a autora de “Alba” lembra os tempos de aluna de Filosofia. (Jornal da USP, julho de 2026).


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Nascido em São João del-Rei, reside em Belo Horizonte. Graduado em História pela UFOP, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela USP; professor universitário. É autor dos livros: Poemas Pitorescos, 2020, Galileu Edições; Casa, Impressões de Minas, 2020; ABC futebol clube, Ed. Aletria, 2015 (Infantil); Via Férrea, Ed. Cosac Naify, e Formigas, Cosac Naify, 2013 (Infantil); Ouro Preto – poemas, Ed. Scriptum, 2012. Casa, Ed. Impressões de Minas, 2020. Contato: marioalexrosa14@gmail.com 

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