Memorial | Jair Tadeu da Fonseca (Gatto Jair)

Fotografia: Fabiana Figueiredo, 1984.

Jair Tadeu da Fonseca, o Gatto Jair (1958-2026): o bardo memorioso, do rock pós-punk à cátedra

Homenagem de Tantas-Folhas a um dos maiores expoentes da vanguarda artística e intelectual belo-horizontina dos anos 1980

Dedicamos este espaço, em terna memória, à família de Jair Tadeu da Fonseca.

Poeta, cancionista, intelectual e humanista, Jair Tadeu da Fonseca iniciou sua formação estético-sociopolítica, na juventude, através do grêmio estudantil do Colégio Estadual Central em 1977 e pela UMES  (União Municipal de Estudantes Secundaristas). Já no curso de Comunicação da UFMG, em 1978, continuou atuando no movimento estudantil e integrou também a Federação Mineira de Cineclubes — movimentos que formaram localmente a linha de frente contra a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964. Apesar do clima de abertura política, no final dos 1970 e início dos 1980, as manifestações ainda eram reprimidas pela polícia. Ele e outros colegas chegaram a ser presos e levados ao DOPS para prestar depoimentos nessa época.

Ainda no final dos anos 1970, participou ativamente como poeta e militante do grupo CemFlores, que abrigou a vanguarda artística e política de Belo Horizonte¹. Dentre os vários integrantes, o poeta multimídia Marcelo Dolabela , foi seu maior influenciador e quem o impulsionou à seguir sua veia artística. Nasce, então, o Gatto Jair — nome motivado pela simpatia de Jair pelo personagem Gato Félix. Chegou a participar dos grupos musicais Divergência Socialista e Sexo Explícito, frutos desse coletivo. Em 1985, fundou a banda O Último Número junto com John Ulhoa, consolidando a primeira formação com Clôde Franco e Paulo Horta. Figurou na lista dos melhores letristas pela revista Bizz da época, deixando sua marca nos palcos como vocalista e letrista principal nos álbuns O Strip-tease da Alma (1986), Filme (1987) e Museu do Mundo (2001), além de outras gravações avulsas e independentes. Dentre suas influências musicais estão Bob Dylan, bem como de outros barítonos do rock e da música popular brasileira, tais como Frank Sinatra, Jim Morrison, Scott Walker, David Bowie, Leonard Cohen, Lou Reed, Tom Waits, Ian Curtis, Morrissey, Orlando Silva e Cartola.

Enquanto democrata e entusiasta do Partido dos Trabalhadores (PT), Jair contribuiu com a interlocução entre os movimentos sociais e a juventude e com a campanha das Diretas Já, no período de 1983 a 1987, quando foi assessor de Luiz Dulci — primeiro deputado federal eleito em 1982 pelo PT de Minas Gerais e ex-ministro nos primeiro e segundo mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Dedicou-se à vida acadêmica no campo das Letras, iniciando sua formação em 1981 na UFMG, onde foi aluno de Jacyntho Lins Brandão — hoje professor emérito e presidente da Academia Mineira de Letras — um dos referenciais na área para Jair. Desse percurso resultaram pesquisas, dissertação e tese importantes sobre o cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981), desenvolvidas como mestrando e doutorando orientado pelo prof. Wander Melo Miranda. Entre 2001 e 2014, aprofundou seus estudos num pós-doutorado pela UFOP e também pela UFMG.

Seu último ofício foi como professor, pesquisador e orientador da UFSC — Universidade Federal de Santa Catarina. Escreveu um número considerável de artigos e publicações sobre literatura e sua transversalidade com o cinema e a canção popular, incluindo uma série de ensaios fundamentais sobre Glauber Rocha para o Forumdoc.bh (Festival do Filme Documentário e Etnográfico). Deixou também pesquisa em trâmite sobre o crítico e cineasta montesclarense Maurício Gomes Leite (1936-1993).

Na vida pessoal, é muito mencionado por seu jeito discreto, calmo, bem-humorado, de simplicidade e delicadeza singulares e, sobretudo, por uma memória prodigiosa — que já se manifestava na infância, quando chegou a ganhar prêmios no programa de perguntas e respostas Seu Saber é pra Valer, da antiga TV Itacolomi. Essa forma de ser o tornava uma pessoa especial, sem pretensão. Naturalmente, abastecia-se e nos transferia a mais fina erudição em suas conversas, aulas, arguições e postagens nas redes sociais.

Nos presenteava recorrentemente no Facebook com uma seção de obituários. Hoje, esse gesto nos sugere a evidência de sua vontade pela elevação do Ser para que não seja esquecido, mesmo com o findar da existência. A valorização da memória, por todas as formas, foi o cerne de sua estadia num mundo cada vez mais líquido. O cinema, a música e seu acervo particular foram também uma maneira de preservar e homenagear, em vida, tantas outras vidas.

Essa sua relação visceral com o passado encontra eco em Jorge Luis Borges — o escritor fantástico da memória, com quem Jair mantinha estreita afinidade intelectual, sendo seu leitor e apreciador, assim como de Julio Cortázar, Buñuel, Carlos Saura e outros escritores e cineastas ligados ao surrealismo e ao realismo mágico. Resta, pois, um convite: quem sabe não nos lembraremos dele toda vez que folhearmos A Biblioteca de Babel, ou Funes, o Memorioso, de Borges — esse alguém cujo dom da recordação reverencia outras memórias. Ou quem sabe o imaginemos invocando Mnemosyne, a deusa grega da memória e mãe das nove musas, quando havia necessidade de cantar, fazer um recital ou dar aulas? O poeta e o professor talvez sejam os mais escravos da lembrança. Mais que justo, portanto, que seus feitos fiquem sempre conosco e salvaguardados — afinal, se não fossem as pessoas que se (pre)ocupam com a eternidade, não teríamos um museu de grandes novidades.

Mas, embora fosse um guardião da memória, foi também um sujeito atento às novidades do seu tempo, no campo das artes, da geopolítica e de assuntos diversos. Não à toa, foi espectador assíduo do Canal Brasil, do Curta!, do GGN de Luiz Nassif, da TV 247 e dos canais do jornalista Pepe Escobar, entre outros, para além da mídia mainstream. Entretanto, o mistério maior do memorioso Jair possa estar na canção A Arte é Longa, a Vida é Breve, onde nos revela a pista sobre ele, e sobre a vida.

Jair Tadeu da Fonseca, nasceu em 9 de abril de 1958, em Montes Claros, e morreu, aos 67 anos, em 15 de março de 2026, em Belo Horizonte. Deixa órfãos de sua presença familiares, amigos, parceiros, colegas de trabalho, alunos e admiradores.

Em sua homenagem, o site Tantas-Folhas — do qual Jair foi incentivador, autor e colaborador — convida você a visitar o Memorial de referências à sua vida e obra, criado em 2020. A ideia é reunir esforços para curar e atualizar conteúdos de sua trajetória, mantendo viva sua relevância para esta e as próximas gerações. Um aceno também para que pesquisadores, entusiastas e artistas da música, do cinema e da palavra conheçam mais de sua biografia e seu legado.

 

Para visitar, basta clicar nas seguintes páginas: 

Homenagens

Fotografias

Entrevistas 

Multimídia 

Discografia e Shows — banda O Último Número 

 

Nota:  ¹ Cf. Albinati (2025).

 

Agradecemos aos irmãos Goretti Fonseca, Eugênio Fonseca e Roberto Fonseca; a Clara Albinati, Claudia Mesquita, Emília Mendes, Regina Guerra; a André Rosa, Carlos Barroso, Ewerton Belico, Jacyntho Lins Brandão, Luiz Dulci, Robert Frank; aos amigos e ex-integrantes da banda O Último Número (Clôde Franco, Bob Faria, John Ulhoa, Paulo Horta, Otávio Martins); e a Cecé Castelo, Celina Lage, Fabiana Figueiredo, Marcelo Pinheiro e Regina Brito pelas imagens gentilmente cedidas.

 

Pesquisa, organização e edição | Kellen Guimarães.

Revisão | Emília Mendes (Colaboração especial).


Esta página de abertura é parte integrante do Acervo de Referência / Memorial / Memorial | Jair Tadeu da Fonseca (Gatto Jair), localizado no menu do site Tantas-Folhas. Estará sob revisão, atualização e reclassificação das informações, conforme evolução e necessidade. Foi escrita por meio de pesquisas e conversas com o mesmo — graças também a informações e depoimentos fornecidos pela rede amigos e família de Jair.

Se você deseja compartilhar seu depoimento, uma fotografia ou prestar sua homenagem, entre em contato conosco pelo e-mail revistatantasfolhas@gmail.com e ajude-nos a enriquecer este acervo.

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