Imagem e palavra, de Jean-Luc Godard: um apólogo?
“Queria que meu filme fosse basicamente como um romance.”
Jean-Luc Godard
“Produzir é respirar.”
Jean-Luc Godard, em Imagem e palavra
O poeta norte-americano Ezra Pound (1885-1972) escreveu certa vez, no Abc da literatura, que os artistas são as antenas da raça. O cineasta-poeta-filósofo Jean-Luc Godard, que já foi qualificado de diversas maneiras, positivas e negativas, com seu último longa-metragem, Imagem e Palavra (no original, Le livre d’images; numa tradução literal, o livro de imagens; no título brasileiro, Imagem e palavra), poderia ser descrito desta maneira, exatamente como uma preciosa antena da sua época, lugar e circunstância. No seu caso, extremamente afinado, em toda sua produção, com seu tempo e período histórico, ele que foi capaz não só de produzir obras etnologicamente reveladoras em relação a sua época, mas também capaz de antecipar o que estaria vindo logo em seguida, a partir do que estava enxergando e filmando naquele dado momento.
É só se lembrar de A chinesa e de Week-End, ambos de 1967, e o que aconteceu no ano seguinte, exatamente o maio de 68 francês e o ano de 1968 no mundo inteiro, momentos em que a revolução esteve por um fio de cabelo em várias partes do mundo. E estes dois não são exemplos únicos: sua filmografia está repleta de obras não só em sintonia com a sua circunstância, mas também com o que virá logo depois: ver Pierrot le fou, Alphaville, Uma mulher casada, Duas ou três coisas que sei dela, História(s) do cinema, Made in USA, etc. etc.
Em Imagem e palavra, como por exemplo em História(s) do cinema, usa uma forma bastante semelhante: trechos de filmes editados (montados) uns com os outros, textos recitados por ele ou atores convidados, textos e trechos de grandes escritores (Maurice Blanchot, Bertolt Brecht, Sigmund Freud, Fiódor Dostoiévski, Honoré de Balzac, Louis-Ferdinand Céline, Arthur Rimbaud, Montesquieu, Edward W. Said, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Rainer Maria Rilke, William Faulkner, George Steiner, etc, etc, neste filme específico), trechos de filmes clássicos, inclusive dos seus próprios, músicas usadas com precisão quase matemática, mas sobretudo com comentários poéticos, quadros de pintores idem, ele que foi artista plástico na adolescência, ruídos, sons ambientes, diálogos, poemas, trechos de romances e jornais lidos e recitados, que compõem uma trilha sonora altamente inventiva: críticos e ensaístas já disseram que seus filmes deveriam ser escutados de olhos fechados, tal a riqueza da banda sonora. Imagem e palavra, como outras fitas dele, a cada plano contém várias informações e citações ao mesmo tempo cinematográficas, literárias, filosóficas, poéticas e históricas, uma música que acrescenta camadas de leitura, inscrições na imagem, uma obra que não pode ser captada numa única visão, tal a quantidade de informações a cada plano.
Nestes filmes, e aqui especialmente, Godard analisa as terríveis situações que a humanidade vem enfrentando cotidianamente, hoje: guerras provocadas por grandes e pequenas potências, ataques terroristas frequentes, estupros de mulheres, crianças e desvalidos, abusos do poder em diversas situações, desumanidades diversas e variadas, abuso e assassinatos de crianças, uso da tortura em parte significativa das populações, mesmo em países sem guerras contra outros países, mas guerras sim contra a sua própria população, como o Brasil, etc. etc. (nós nunca estamos tristes o suficiente para que o mundo seja melhor: em Imagem e palavra). Uma situação catastrófica.

Este aspecto, em Imagem e palavra, é similar a seus últimos filmes. Por exemplo, no seu final, ouvimos a pergunta retórica: você pensa que os homens no poder, atualmente, no mundo, sejam outra coisa além de idiotas sangrentos? A pergunta é dirigida ao espectador. Godard sempre dialogou, ou procurou dialogar, com sua plateia. E questioná-la. Seguindo um modelo brechtiano. Será por isso que ele é muito conhecido, mas nada popular? Ninguém gosta de ser questionado e, eventualmente, responsabilizado. Mas ele diz mais: Há algo de errado com a lei. De repente, sua voz afirma, também: sempre estarei com as bombas… Porém, um pouco diferente nesta obra, tem algo de alentador sobre a humanidade, quase no final: nós nos perguntávamos como, na escuridão total, cores de tal intensidade poderiam emergir de nós. Elas são o produto do nosso conhecimento da luz. O conhecimento vê.
O homem não é só trevas, ele conhece a luz, e é capaz de ver… E, nesse filme, realmente assistimos, de tempos em tempos, planos em que as cores e a luz explodem, em composições delirantes e primorosas. Mas, insistentemente, logo depois, um realismo quase cósmico perdura: a terra abandonada, sobrecarregada com as letras do alfabeto, sufocada sob o conhecimento e quase nenhum ouvido escutando mais. (O próprio conhecimento (da luz?), contraditoriamente, é incapaz de mudar a situação… Nossa época, de muito conhecimento científico, mas de um negacionismo atroz e ignorante, está claramente refletida nesta obra). As imagens que se seguem a estas frases são enfáticas: Helen Keller, a personagem surda, muda e cega, da obra-prima de Arthur Penn, O milagre de Anne Sullivan (1962), tem vários fotogramas do seu rosto, e das suas mãos, repetidas em Imagem e palavra, em diferentes lugares. Surda, muda e cega… Aqui ele está mostrando a personagem Helen Keller, incapaz de ouvir e ver, o que foi sua condição até os oito anos, a que está no filme quase até o final, ou a Helen Keller real, que no final do filme de Penn já está pronta para progredir a vida inteira, aprender, falar (com as mãos, mais tarde com a boca), conversar, escrever livros e até mesmo ver, graças a sua professora, Anne Sullivan, que sempre a acompanhou, viu e descreveu para ela o mundo? (Tudo isto aconteceu com a Helen Keller real durante sua vida). Mas, em seguida, em Imagem e palavra, uma música é cantada: aqui estão algumas rosas. Nasceram ontem à noite. Sim, parece que estamos diante da cegueira, da surdez, da mudez e da destruição; mas estamos também, contraditoriamente, diante da possibilidade da mudança, do aprendizado, do trabalho, do esforço, da epifania.
Aqui o filme parece terminar: logo em seguida desenrolam-se os créditos com os nomes dos autores, diretores, filmes, músicas e músicos citados, que em todos seus filmes anteriores finalizavam aquela obra. Poderíamos resumir com uma das afirmações lançadas no próprio filme, só encontrei a verdade para perdê-la? Para perdê-la para uma verdade contrária, que parece contradizer a primeira, mas que pode estar complementando-a?

Mas a intrincada dialética godardiana não termina aí. O que parecia o final do filme, os créditos das citações, não o finaliza, absolutamente. Quando os créditos, por sua vez, terminam, um apólogo é acrescentado. (Apólogo: historieta mais ou menos longa, que ilustra uma lição de sabedoria e cuja moralidade é expressa como conclusão: em Aurélio Século XXI). A voz de Godard toma o comando e pondera: E mesmo se nada aconteça, como esperávamos, isso não muda em nada nossas esperanças. Permaneceriam uma utopia necessária, as expectativas inflamariam muitas vozes suprimidas por um inimigo mais forte, como se o passado fosse imutável e a área das expectativas seriam maiores do que em nossa época, espalhando-se em cada continente a necessidade da contraposição, da resistência nunca enfraquecida… ardente esperança… mesmo que nada fosse como desejávamos, nossa esperança nunca mudará.
Ardente esperança…Nossa esperança nunca mudará… Nesta parte, que chamei de apólogo, antes desta frase que realmente e de fato conclui o filme, Godard já havia afirmado deve haver uma revolução. Neste final, portanto, que é realmente um apólogo, e que até o momento é o final também da obra de Godard (segundo o Imdb, site de cinema mais consultado do mundo, depois de Imagem e palavra, Godard somente realizou um curta-metragem de 1 minuto) ele, quase aos noventa anos, provavelmente, quer deixar um testemunho final para seu público, claro e sem ambiguidades possíveis. Longe de usar sua lógica extremamente racional, e que leva em conta, geralmente, de maneira impiedosa, as precedentes conclusões a que chegou, e que mostrou (filmou), Jean-Luc Godard afirma, sem ambiguidade, nem dialética, agora, sua crença e sua fé na claridade e conhecimento da luz alcançados pelo ser humano.
A claridade do conhecimento da luz, aqui, nos faria ver. Mesmo que vivamos num tempo escuro, extremamente cruel e anti-utópico, que ele sempre retratou com clareza e justeza, e mesmo aqui, neste filme, Imagem e palavra? O que importa? Tudo é graça, não afirmou Godard, também, em Imagem e palavra, citando e se apropriando das últimas palavras das obras de Georges Bernanos e Robert Bresson, Diário de um pároco de aldeia, livro e filme? Tudo é graça? (Entre os vários significados desta palavra, graça: favor dispensado ou recebido, mercê, benefício, dádiva, Aurélio Século XXI). Ele já não havia dito, neste filme mesmo, com todas as letras, essas descobertas, esses abismos? Descobertas e abismos, parciais ou finais? Tudo misturado com a graça, já que tudo é graça? Longe de ter um apólogo somente no seu final, não seria Imagem e palavra, todo ele, finalmente, um apólogo para toda sua excepcional obra de, até agora, 138 filmes? Que o Imdb reduz a 129, mas que uma pesquisa rigorosa, com os livros mais confiáveis sobre sua filmografia, mostra ser na verdade, 138, entre longas-metragens, curtas e vídeos.
Jean-Luc Godard atesta, aos 90 anos, com seu último longa-metragem, que é, simplesmente, o maior e o mais prolífico dos cineastas vivos. E que pode ser comparado e igualado a grandes que já se foram: Jean Renoir, Alfred Hitchcock, Nicholas Ray, Sergei Eisenstein, Howard Hawks, John Ford, Kenji Mizoguchi, Satyajit Ray, Glauber Rocha, Robert Bresson, Alain Resnais, Ingmar Bergman, Luis Buñuel, Carl Theodor Dreyer, Buster Keaton, F. W. Murnau, Yasujiro Ozu, etc. etc. Longa vida, ainda, a este cineasta-poeta-etnólogo-filósofo-artista plástico-escritor inigualável, original e necessário. Este mundo triste, sombrio e catastrófico que construímos (ou que, no mínimo, permitimos que fosse construído) precisa de pessoas e autores exatamente como ele, que sempre disse não a todos os podres poderes realmente existentes, mas que ao final e ao cabo, cantou e celebrou este mundo (que é o nosso) de luz e sombra, positivo e negativo, preto e branco, que não por acaso, são as palavras chaves da sua grande arte – que inclui quase todas as outras -, o cinema.

*Este ensaio é, basicamente, o mesmo que foi publicado (em novembro de 2020) no livro Jean-Luc Godard, de Acossado a Imagem e palavra (Editora Tipografia Musical), de Mário Alves Coutinho. O autor somente acrescentou alguns poucos parágrafos, que julgou pertinentes ao filme e a esta revista.
O texto é parte integrante da Revista Tantas-Folhas, edição v.1, n.1 (2020)
Mario Alves Coutinho
É escritor, ensaísta, tradutor, Doutor em literatura comparada (UFMG), pós-doutorado pela UFMG. Publicou Escrever com a câmera: a literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard”; Godard, cinema, literatura” (ambos da Crisálida); Godard e a educação (co-org., Autêntica) e Jean-Luc Godard, de Acossado a Imagem e palavra” (Editora Tipografia Musical); Um corpo que cai, Alfred Hitchcock ou o perverso e o sublime (ETM). Traduziu, organizou, introduziu e anotou os livros de poesia Tudo que vive é Sagrado (William Blake/David Herbert Lawrence), Canções da inocência e experiência (Blake) e O livro luminoso da vida (ensaios, Lawrence, os três da Crisálida) e também Aforismos Musicais (Wolfgang Amadeus Mozart) e Tudo tem que ser possível, o livro de Johann Sebastian Bach; e A explosão e o suspiro (romance, os três da ETM).
Muito mais que apenas alegria ou mero prazer, sinto uma espécie de “enriquecimento interior” ao acabar de ler essa matéria do Mário Coutinho.
Sem dúvida – e creio que não apenas o Mário afirma isso – Godard é “simplesmente, o maior e o mais prolífico dos cineastas vivos”. No entanto, ler essa afirmação vinda do Mário é o que me coloca numa posição, diria eu, de privilegiado.
Mário não apenas recolhe, ao longo dos anos, dados biográficos de Godard (lugares, épocas, circunstâncias, ingredientes de qualquer biografia). Mário vai além.
Ele mergulha fundo na alma do cineasta. É como se Godard viesse falar diretamente conosco, trazendo seus pontos de vista, ideais, esperanças, visões – e as consequentes frustrações –, neste “mundo triste, sombrio e catastrófico que construímos (ou que, no mínimo, permitimos que fosse construído)”.
Muito obrigado, Mario.
Marcus Cremonese, Rylstone, Austrália
Prezado Marcus, agradecemos seu comentário! O professor e pesquisador Mário Alves Coutinho nos enche de orgulho e Godard é um campo vasto para aprofundamentos. Seja bem vindo.
Belo texto..