Homenagens a Jair Tadeu da Fonseca, o Gatto Jair (1958-2026): o bardo memorioso


No dia 15 de março de 2026, a cena cultural e intelectual perdeu, aos 67 anos, um dos maiores expoentes da vanguarda belo-horizontina dos anos 1980.

Dois meses após a partida do poeta, cantor, letrista e professor Jair Tadeu da Fonseca, o Gatto Jair, o site Tantas-Folhas — do qual foi incentivador e colaborador — rompe um hiato de cinco anos para celebrar seu legado e revisitar sua memória, ao lado de familiares, amigos e admiradores.

As homenagens e os depoimentos seguem um fluxo aproximadamente cronológico, ora se organizando por temas nos quais Jair se engajou e que vivenciou ao longo de sua trajetória.

Fotografia: Fabiana Figueiredo, 1984.

“Ars longa, vita brevis”

De bardo e cancionista do rock pós-punk a professor e pesquisador da palavra transfigurada em poesia, literatura, cinema, canção popular e inúmeros saberes — o Gatto Jair, como era conhecido no meio artístico, deixa um vasto legado e influência cultural na cidade, em várias partes do país e, quiçá, do mundo.

Montes-clarense radicado em Belo Horizonte ainda na infância, Jair foi muito querido e admirado por todos que tiveram o privilégio de conviver com ele. Com seu jeito discreto, tranquilo e bem-humorado, arrebatou uma rede diversa de fãs, amigos, interlocutores intelectuais e parceiros artísticos.

Muito ativo nas redes sociais, nos presenteava, quase diariamente, com suas finas pepitas culturais e obituários de relevância. Completaria 68 anos em 9 de abril de 2026.

Assim, preservar sua memória é o que move esta homenagem, nossa, de amigos e familiares — na tentativa de expressar e registrar sua relevância para esta e as próximas gerações. Um convite também a pesquisadores, entusiastas e artistas da música, do cinema e da palavra, em todos os seus sentidos, a conhecerem mais de sua vida e obra.

Como noticiado pela Folha de S.Paulo, em breve o site Tantas-Folhas disponibilizará a seus leitores e visitantes um Memorial de referências dedicado a Jair, como parte desta homenagem, em Acervo de Referências (no menu do site).

 

Ars longa, vita brevis é o título de uma canção do primeiro álbum O Strip-tease da Alma, da banda O Último Número, lançado pelo selo Câmbio Negro em 1987.


 

Infância | Família & memória:

Jair Tadeu da Fonseca (de óculos), ao lado dos irmãos Eugênio Fonseca, Roberto Fonseca (à direita) e da irmã Goretti Fonseca (à frente). Fotografia cedida pela família.

Eugênio e Roberto Fonseca | Seu Saber é Para Valer, antiga TV Itacolomi.

Quando éramos crianças, no final dos anos 1960, enquanto jogávamos bola no campinho do Coração de Jesus, ao lado da Rua Gentios, o Jair ficava lendo livros e enciclopédia. A muito ilustrada e colorida Enciclopédia Trópico ele devorava. Guardou tanta coisa na cachola que participou e ganhou por duas vezes o programa de perguntas e respostas Seu Saber é Para Valer, na TV Itacolomi, que funcionava no Edifício Acaiaca. Ele virou o herói lá de casa, pois levou como prêmio, no total, dois autoramas, que eram brinquedos caríssimos naquela época. Em uma das perguntas decisivas houve controvérsia entre o Jair e a produção, que considerou a resposta dele incorreta. Mas ele contestou, bateu o pé. O Gattinho Jair se impôs. A produção fez consultas e reconheceu que a resposta dele também estava correta. Além dos autoramas, levou para casa estatuetas do indiozinho da TV Itacolomi. O Jairzinho ganhou a estatueta duas vezes!

Eugênio e Roberto Fonseca, irmãos.

Eugênio Fonseca | “Arquinimigos dos Supermen”

Foto: Acervo Marcelo Dolabela.

No Jair, as aparentes contradições se tornavam harmonia: silêncio e afeto, reserva e abundância. Discreto, montes-clarense-atleticano-elegante. Retraído, mas com muitos camaradas amados, que também o amavam muito.

 Grande parte dos amigos que visitaram o Gatto Jair, na dolorosa parte final do seu último número, era desconhecida do reduzido círculo íntimo familiar; não obstante, sofremos juntos com a doença que o acometeu. Como era de se esperar, Jair, o Gatto, levou todo o processo com estoicismo. Estoicismo facilitado pelo entra e sai carinhoso nos hospitais de tantos “arquinimigos dos Supermen”: poetas, músicos, criadores, intelectuais e amigos dos poetas. Entra e sai que aqueceu o coração do Jair, até que, ponto final, ele partiu para reencontrar os seus amigos, Juca e Marcelo Dolabela.

*Arquinimigos dos Supermen é uma citação do livro da Clara Albinati, “poéticas, políticas em BH nos anos 80”.

Eugênio Fonseca, irmão.


 

Gatto Jair, 1984. Foto: Fabiana Figueiredo.

Carlos Barroso | “…notabilizou pelo talento e pela pesquisa em todas as áreas em que atuou…”

Poeta do coletivo Cemflores, compositor, letrista e vocalista de bandas de rock pós-punk, Jair Tadeu Fonseca, ou Gatto Jair, como era conhecido no meio artístico, se notabilizou pelo talento e pela pesquisa em todas as áreas em que atuou, principalmente durante o efervescente caldo cultural da Belo Horizonte dos anos 1980, quando as experimentações e a síntese das artes estavam na ordem do dia. E Gatto soube, como poucos, atuar nesse contexto criativo. Em paralelo, ele construiu uma sólida carreira acadêmica, como professor de Teoria Literária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Gatto Jair sempre buscou a poesia na musicalidade e na música a síntese de um poema.

Desde a época da criação da revista Cemflores, quando era secundarista, ele demonstrava talento, tanto na música, quanto na poesia. Um exemplo dessa procura abrangente, além da carreira acadêmica, ele se tornaria também um crítico e pesquisador apurado de cinema.

Poema: Carlos Barroso / 18–3-2026. Publicado no Instagram e Facebook.

Carlos Barroso é jornalista, poeta e um dos fundadores do grupo Cemflores.

Marcelo Pinheiro | O movimento estudantil e a luta contra a ditadura militar

Assembleia no saguão da FAFICH/UFMG, 1980. Foto: Marcelo Pinheiro.

Conheci o Jair no colégio Estadual Central em 1977 quando cursávamos o 3º ano do curso científico, ainda na época da ditadura militar. Nós atuávamos no grêmio estudantil do colégio e fizemos nossa estreia no movimento estudantil dando apoio do lado de fora ao III Encontro Nacional dos Estudantes, que aconteceu no DA da Escola de Medicina da UFMG.  O encontro foi duramente reprimido pela polícia que prendeu todos participantes e dispersou os estudantes que apoiavam do lado de fora. Jair era mais engajado e atuava na UMES – União Municipal de Estudantes.

Em 1978 entramos na faculdade, ele no curso de Comunicação e eu no curso de História. Participamos das calouradas e passamos a atuar no movimento estudantil e também no movimento cineclubista através da Federação Mineira de Cineclubes. O movimento estudantil era a linha de frente na luta contra a ditadura militar. Já existia um clima de abertura política, mas as nossas manifestações eram reprimidas pela polícia. Em ocasiões diferentes, tanto eu como o Jair fomos presos e levados para o Dops para prestar depoimento.

Marcelo Pinheiro é historiador e fotógrafo. Registrou também, tempos depois, os primeiros palcos da Banda O Último Número, e o engajamento de Jair com a música e a poesia, nos anos 80. 

Dolores Lemos | “Rodaram conosco até clarear. Aceleravam, freavam, faziam curvas extremas, ligavam sirene. Foram horas de terror e medo.”

Fotografia cedida por Dolores Lemos.

Jair. Antes do Gato.

1977.

Ele era da UMES, eu secundarista.

Ele completando 19 e eu 17 anos. Namorados enamorados.

Era o moço que escrevia, declamava suas poesias, esmiuçava as palavras em todos os aspectos, sabia a intimidade delas. Revolucionário, companheiro para tudo.

Uma noite, voltando do corre de vender jornais nos bares, parou uma viatura no ponto do ônibus noturno e começou a revistar os que fomos escolhidos na fila. Carregávamos exemplares do De Fato e do Tempo, jornais de esquerda que vendíamos noite afora e que sobraram.

Colocaram ele na viatura, na gaiola. Me colocaram no banco de trás, entre dois “meganhas”. Rodaram conosco até clarear. Aceleravam, freavam, faziam curvas extremas, ligavam sirene. Foram horas de terror e medo.

Por fim nos entregaram na Secretaria de Segurança e depois fomos libertados.

Foto só tenho uma, das antigas, era do “Flagrante Joia”. Um fotógrafo que ficava nas ruas do Centro fotografando casais. Depois te dava um número e você iria lá no estúdio para pagar a revelação da foto e possuí-la.

Quem me deu foi o irmão, estava nas coisas dele.

Era gentil. Não era machista. Eu diria, era feminista.

Elegante sem afetação.

“Incomprável” e “invendível”.

Tinha estômago sensível, não se curvava.

Nada da riqueza, luxo ou ostentação passava por seus olhos sem a marca de sua crítica. Nada disso o fascinava.

Dolores Lemos é terapeuta ocupacional e artesanias.

Regina Guerra | A multiartisticidade de Marcelo Dolabela na Inventividade de Jair Fonseca

Murinho da FAFICH (UFMG). Juca, Marcelo Dolabela e Gatto Jair. Foto: Marcelo Pinheiro, [1982?].

Marcelo e Jair eram camaradas companheiros parceiros amigos. Se entendiam sem mesmo um olhar. O mesmo conceito de esquerda firme, o mesmo paideuma: Glauber Rocha, Tropicália, poesia concreta,  Oswald de Andrade, poesia de todos os tempos, MPB& pós punk. Nessa geleia geral os dois dialogavam, realizavam, faziam e aconteciam. 

Marcelo Dolabela só foi pra as páginas do Suplemento Literário depois de morto e pela mão do Jair no belo ensaio: “flores para Raul de Leoni”, publicado na edição especial do suplemento em comemoração aos 300 anos de Minas Gerais e editado por Jacyntho Lins Brandão. 

Sobre a influência do Marcelo na obra do Jair, deixo o próprio falar “Eu praticamente devo tudo o que produzi de música e poesia ao empurrão fraternal do Marcelo. Desde o início, na união de música e poesia que criou  a banda sexo explícito, depois a divergência socialista a ao final a banda último número. … Foi um empurrão dos melhores”.

Essa fala está no sarau de homenagem ao Marcelo feito de forma virtual , em junho de 2020. 

Regina Guerra é viúva de Marcelo Dolabela (1957-2020).

Fabiana Figueiredo | “O Último Número, as letras, a voz encorpada e aveludada de Jair, suas calças pretas de couro, eram muito mais que um show de rock.”

Grupo Divergência Socialista. Da esquerda para a direita: Marompas e Roberto Fonseca (à esquerda), Marcelo Dolabela (ao centro), Fabiana Figueiredo e Gatto Jair (à direita). Foto: Tibério França, [1982?].
Jair nasceu junto com o CemFlores. A palavra, a língua portuguesa, como meio de criar formas, gerar ideias.
A poesia virou cantada, a música, naqueles anos pós ditadura, era atitude, comportamento, criação livre, volta a liberdade, uma meia revolução. O Último Número, as letras, a voz encorpada e aveludada de Jair, suas calças pretas de couro, eram muito mais que um show de rock.
Era a criação de um pensamento, progressista filosófico que influenciou uma geração de artistas.
Como Belo Horizonte era incrível.
A arte é longa, a vida é breve.

Te amo.

Fabiana Figueiredo é fotógrafa e teve papel fundamental nos registros d’O Último Número e da cena musical dos anos 1980 e 1990. Foi integrante das bandas Divergência Socialista e Sexo Explícito.

Emília Mendes | “uma profunda sensibilidade e delicadeza para lidar com emoções demasiado humanas”

Foto: Evandro Fiuza. Acervo Marcelo Dolabela.

Conheci o Jair nos idos de 1998, quando fomos colegas na pós-graduação, ele no doutorado e eu no mestrado, numa disciplina incrível do Maurício Vasconcellos. Jair se destacava muito, suas falas eram sempre muito pertinentes e interessantes, então começamos a ser amigos pelo viés da poesia francesa do XIX e da música. Sempre admirei a criação poética do Jair: temas complexos e abordagens refletidas; sonoridades extremamente sofisticadas; uma profunda sensibilidade e delicadeza para lidar com emoções demasiado humanas; escolha minuciosa de palavras e de sintaxes que criam obras primas. Para mim, Museu do mundo é uma das mais belas canções já feitas. Tive a sorte de sempre ter podido conversar com o Jair sobre poesia e sobre as palavras. Fiquei feliz ao ouvir dele em seu leito de hospital: tenho gostado dos seus livros, a gente sempre acompanha os amigos. Que assim seja, Gato Jair!

Emília Mendes é professora, poeta e artista do livro.

Clara Albinati | O grupo Cemflores e as tantas sementes lançadas

Jair em entrevista com Clara Albinati (2020), pesquisadora do grupo Cemflores.

Quando eu nasci o Jair já estava na minha vida, por sua amizade com meu pai desde o grupo Cemflores, quando ambos eram estudantes da UFMG nos anos 1970.  Cemflores foi um coletivo de poetas, artistas, performers, músicos… o pessoal da vanguarda artística e política de BH. No grupo estavam: Luciano Cortez, Jair Fonseca, Marcelo Dolabela, Carlos Barroso, Avanilton de Aguilar, Carlos Augusto Novais, Ilka Boaventura, Vanita Aguilar, Roberto Soares, Juca (Geraldo Graciano), Adriana Bizzotto, Rubinho Mendonça, José Luiz Furtado, Virgílio Mattos, Murilo Almeida e muitos outros. De Cemflores surgiram as bandas Sexo Explícito, O Último Número e Divergência Socialista. Resolvi fazer uma pesquisa sobre esse movimento que resultou numa tese de doutorado e no livro Cemflores: poéticas políticas em BH nos anos 80. Foi quando me aproximei mais do Jair e o descobri como uma pessoa muito generosa, delicada e afetuosa. Me identifiquei com sua perspectiva poética um tanto lírica e melancólica, e com suas leituras de Walter Benjamin e Raymond Williams. Nos últimos meses tive a oportunidade de acompanhá-lo, quando ambos atravessávamos a experiência do câncer. 

Clara Albinati é professora, cineasta independente e autora do livro Cemflores: poéticas políticas em BH nos anos 80, (Editora, Fino traço 2025).


 

A banda O Último Número | As primeiras formações e os primeiros palcos:

Início da primeira formação da banda O Último Número. Calourada no estacionamento da antiga FAFICH da UFMG.  Gatto Jair (vocal), John Ulhoa (guitarra) à esquerda, Paulo Horta (baixo) e Clôde Franco (bateria). Foto: Marcelo Pinheiro, 1985.

John Ulhoa | “…bardo beatnik gato atormentado”

Era o início dos 80, a ditadura parecia estar fraquejando, o ar tava ficando mais leve, e me vi cercado de pessoas incríveis, tão singulares que fizeram desses meus anos formativos um salto, e parece que vivo desse impulso até hoje. Entre essas pessoas, tinha o Jair. Era o cara mais doce, mais afável de toda aquela turma. Tinha uma veia poética mais séria, menos debochada que seus pares (como Marcelo Dolabela e Rubinho Troll). Ao seu redor, eu e mais alguns amigos nos juntamos pra formar “O Último Número”. “É o nome do último poema do Augusto dos Anjos…”, ele me explicou. Jair me explicou muitas coisas. Uma vez, numa festa, foi me demonstrar um chute pro alto tipo James Brown, escorregou e se estabacou do alto de sua calça de couro preto. Levantou rindo de si mesmo, e aí aprendi a ter cuidado com chutes pro alto e a rir de nós mesmos. No palco, encarnava um Jair Morrison Curtis McCulloch, bardo beatnik gato atormentado, e cultivou um monte de fãs que me falam daquela figura e daquelas letras até hoje. Era demais o meu amigo Jair.

John Ulhoa (Pato Fu) foi co-fundador e guitarrista da primeira formação da banda O Último Número.

Clôde Franco | A loja de discos Câmbio Negro aos fanzines Gass e Let it rock

Banheiro do DCE/UFMG, 1984. Clôde à esquerda, Gatto Jair à frente, Paulo Horta e João Daniel (John Ulhoa) à direita. Foto: Fabiana Figueiredo.

Conheci o Jair no DCE da UFMG, ele fazia parte do coletivo do Marcelo Dolabela, Divergência Socialista, isso por volta de 1983. Na época, falei para o Jair ir à minha loja de discos, a Câmbio Negro, para trocarmos uma ideia e beber umas cervejas. Como ele era muito informado sobre música e cinema, conversávamos muito e foi amizade para o resto da vida. Ele participou ativamente dos fanzines que a loja produzia como a Gass e o Let it rock, fazendo inclusive uma histórica entrevista com o Nick Cave em Santa Tereza. Por volta de 1985, Jair e John Ulhoa formaram O Último Número e me convidaram para tocar bateria, foi um período de muita criatividade, porque as letras do Jair davam um toque totalmente especial para a banda. Já no Butiquim desde 1999, o Jair foi sempre um frequentador assíduo do balcão, onde as conversas regadas a cerveja varavam a noite, sempre muito divertidas. Naquele balcão tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim.

Clôde Franco foi baterista da banda O Último Número e proprietário do “Butiquim desde 1999”, no bairro Santa Tereza (BH).

Show no Aeroanta (SP),1989. Foto publicada na Revista Bizz da época. Autoria desconhecida.

Paulo Horta | “Jair Fonseca escrevia poemas e os cantava” 

Participei da banda O Último Número entre 1985 e 1989, a convite do Gato Jair e do John Ulhoa. Ao nosso lado, o querido Clôde, com sua bateria simples e gostosa de ouvir. A princípio, eu fazia o baixo, com John na guitarra (e violão nas gravações). Jair Fonseca escrevia poemas e os cantava.

Em 1986, a loja de discos do Clôde, Câmbio negro, criou um selo para produzir nosso primeiro disco. O strip tease da alma.

No ano seguinte, o John, que também fazia parte da banda Sexo explícito, foi com eles para São Paulo e deixou o Último Número.

Assim a banda passou por uma reformulação: fui para a guitarra e convidamos Bob Faria para o baixo.

Com esse formato, fizemos parte do disco Rock Forte, coletânea da RCA com 6 bandas mineiras.

Logo a seguir, convidamos também Otávio Martins para uma segunda guitarra e foi esse quinteto que em 1988 gravaria o disco Filme Além de uma música do Arnaldo Batista, dos Mutantes, para o disco Sanguinho novo, feito em sua homenagem com várias bandas do cenário alternativo do Brasil.

Pouco depois, deixei o grupo para trabalhar com publicidade e gravações de áudio, e o Bruno do Cavaco pegou o baixo. 

Bem depois, já em 2001, participei como técnico e compositor na gravação do primeiro CD: Museu do mundo.

Paulo Horta foi baixista/guitarrista da banda O Último Número e produtor.

Ensaios na rua Itatiaia, bairro Bonfim/BH, [1988?]. Da esquerda pra direita: Gatto Jair, Clôde Franco, Bob Faria, Otávio Martins e Paulo Horta. Foto: Marcelo Pinheiro.

Bob Faria | “Não havia palavra solta, palavra vã, palavra inútil! Tudo virava ou era poesia!”

Tudo quanto eu disser pode soar exagerado, mas há dois fatos que são impossíveis de negar. O primeiro é que ele tinha uma alma criativa milhões de vezes maior que o corpo esguio e expressivo! E segundo: que ele injetou no nosso espírito o gosto pela palavra produzida nas destilarias da alma! Não havia palavra solta, palavra vã, palavra inútil! Tudo virava ou era poesia! Ele nos ensinou a degustar os sabores e saberes escritos pelo mundo! Então miseravelmente me dei o direito de me despedir dele, com um poema.

 

O gato poeta escreveu seu último número no ar

e partiu sem dizer onde iria parar.

Mas cada rima que deixou pelo chão

continua vivendo em algum coração.

 

Ele andava nas sombras da noite vazia,

pelos muros das ruas, caçando poesia.

Entre portas, telhados e luz de farol,

espalhando palavras, ao vento, ao sol.

 

O gato poeta escreveu seu último número no ar

e partiu sem dizer onde iria parar.

Mas cada rima que deixou pelo chão,

continua vivendo em algum coração.

 

Quem passou por seus versos talvez nem notou,

mas guardou uma frase que o tempo soprou.

E assim, sem alarde, sem palco ou rumor,

foi ficando pro mundo- para o mundo! – o que ele deixou.

 

Porque o último número não é despedida —

quando a obra fica maior do que a vida.

 

Bob Faria é jornalista e foi baixista da segunda formação da banda O Último Número.

Otávio Martins | “Foi um convívio musical de mais de 20 anos…”

Conheci o Jair em 1988, nos ensaios para o segundo disco, o Filme, a partir de quando me juntei ao UN. O Jair sempre foi um cara super inspirado, mas também super gentil, com quem era impossível ter qualquer atrito. Nos anos 90, passamos também a ser vizinhos na Sagrada Família, isso ajudou a nos encontrarmos com mais facilidade para fazermos as novas músicas do terceiro disco. Dessa época, fizemos 5 músicas que entraram naquele CD Museu do Mundo. A partir dos 2000 já foi mais difícil nos encontrarmos porque ele seguiu pra Floripa, mas ainda fizemos umas 3 ou 4 canções que não chegaram a ser gravadas. Foi um convívio musical de mais de 20 anos e é quase impossível imaginar que paramos por aqui, compulsoriamente. A última cerveja, que foram várias, como sempre, foi numa segunda-feira, no início de 2022, e falamos de tudo, política, música, Nelson Rodrigues, samba, Noel Rosa e Pixinguinha. O repertório dele era vasto.

Otávio Martins foi guitarrista da segunda e terceira formações do grupo.

O Último Número | Álbuns lançados (1987, 1988 e 2001):

Capa do primeiro álbum Strip-tease da alma, Câmbio Negro, 1987. Formação: Gatto Jair (voz e letras), Paulo Horta (baixo), João Daniel /John Ulhoa (guitarra e violão) e Clôde (bateria). Imagem: divulgação.
Capa do segundo álbum Filme, 1988. Formação: Gatto Jair (voz e letras), Paulo Horta (guitarra e violão), Clôde (bateria), Bob Faria (baixo) e Otávio (guitarra). Imagem: divulgação.
Capa do terceiro álbum (CD) Museu do Mundo, 2001. Formação: Gatto Jair (voz e letras), Bruno (baixo, guitarras – na faixa Museu do mundo ), Clôde (bateria), Otávio (guitarra, violão e craviola – na faixa Miracle). Imagem: divulgação.

Museu do Mundo

[Jair/Paulo]

Há tantas coisas feitas

para serem abandonadas

Edifícios na cidade,

filhos, altas velocidades

 

Ah, tantas coisas feitas 

para serem abandonadas

Os amores e as estátuas

que enfeitavam as estradas

 

Tudo isto é só um rastro

que vai do berço ao túmulo

Passar deixando restos

pelo mundo é o cúmulo

 

Acúmulo de trastes

museu de tudo e nada

são coisas muito tristes

as que ficam abandonadas

 

Quem acha que pode tudo

ao final não pode nada

Ah tantas coisas feitas

para serem abandonadas

 

Tudo isto é só um rastro

que vai do berço ao túmulo

Passar deixando restos

pelo mundo é o cúmulo

 

Mas se for mesmo boa a obra

é muito bom que a gente a faça

ainda que a deixemos

farsa sempre abandonada

 

Se algumas coisas terminam

quando mal são iniciadas

muitas outras ficam e

vão sendo aproveitadas

 

E se o trabalho guarda

em si uma única verdade

ele só o dirá um dia

ao sol da nova humanidade

 

E quando houver de fato

a tal futura humanidade

que ela não se queime tanto

na fogueira das vaidades

que ela distribua os bens 

pra todos que fazem a obra

e que enfim não fique nada

nenhuma coisa abandonada

 

Há tantas coisas feitas 

para serem abandonadas

Participação d’O Último Número, junto com outras bandas, no álbum tributo a Arnaldo Baptista (Mutantes). Gravadora Eldorado, 1989.

Algumas divulgações de shows:

Grupos Divergência Socialista e Sexo Explícito:

Participação do Gatto Jair no grupo Divergência Socialista, antes da formação d’O Último Número. O grupo, retratado na fotografia, deu origem às bandas Sexo Explícito e, posteriormente, O Último Número. Da esquerda para a direita: Marcelo Dolabela, Mário/Marompas (baixista do Sexo Explícito), Rubinho Troll (vocalista do Sexo Explícito), Fabiana Figueiredo, Roger (primeiro baterista do Sexo Explícito) e Gatto Jair (último à direita, de óculos). Foto: Tibério França, [1982?].

 

Da UFMG a UFSC | docência, pesquisas em literatura, cinema e canção popular:

“Professor e pesquisador de Teoria Literária da UFSC, doutor em Literatura Comparada pela UFMG, com diversos trabalhos publicados sobre as relações entre literatura e outras artes, principalmente cinema e canção popular. É cancionista, tendo participado dos grupos O Último Número, Sexo Explícito e Divergência Socialista”. Minibiografia enviada por Jair a Tantas-Folhas, em 2020. Foto cedida pela família.

Jacyntho Lins Brandão | “…sabia construir as pontes menos esperadas”

Jair foi meu aluno na Faculdade de Letras no início dos anos 80. Já era o Gato Jair, cantor, e não é todo dia que aparece um roqueiro numa turma de literatura grega. O interesse e a inteligência dele, no estilo Glauber Rocha, sabia construir as pontes menos esperadas. É por isso que acho que podemos dizer que ele encarnou o canibal que funda a cultura brasileira. Como multiartista e também pesquisador e professor. É uma pena que tenha partido tão abruptamente e tão cedo.

Jacyntho Lins Brandão é professor emérito da UFMG e presidente da AM.

Luiz Dulci | De Glauber Rocha a Maurício Gomes Leite: o legado do pesquisador e professor Jair Tadeu da Fonseca para o cinema, a literatura e a cultura brasileira

Jair foi uma das pessoas mais versáteis e talentosas da sua geração. Discreto, nunca fazia alarde de sua ampla cultura, mas conhecia profundamente a música, a literatura e o cinema brasileiros. Era ao mesmo tempo um pesquisador e um criador. Deixou um legado importante, que merece ser resgatado e publicado. Vários de seus poemas e letras de canções são memoráveis. Escreveu artigos literários muito instigantes. E produziu pelo menos dois trabalhos de alto nível sobre o nosso cinema: uma tese de doutorado sobre Glauber Rocha, que está entre os melhores estudos já escritos sobre o autor de Terra em Transe; e uma valiosa pesquisa sobre Maurício Gomes Leite, talvez o maior crítico cinematográfico do país em sua época (1960-1980). Jair deixa saudades em seus muitos amigos, mas deixa também uma obra que vale a pena conhecer.

Luiz Dulci é professor e ex-ministro.

Maria Aparecida Barbosa | “Levantar bem alto um livro”

Na pós-graduação em Literatura nós tivemos bancas de defesa memoráveis com o Jair, gostava de compartilhar com ele as argüições que se transformavam em conversas plenas de erudição com histórias e imagens pertinentes, contadas com seu jeito sereno, que vinham complementar as pesquisas em formato de teses e as dissertações. Mantínhamos uma cumplicidade de mineiros desterrados na maravilhosa Ilha de Santa Catarina, editamos o volume Levantar bem alto um livro, resistindo a ataques contra a universidade pública. O Jair tinha horizontes de leitura e música dentro de casa, lá fora o panorama do mar azul e as montanhas. Nosso amigo foi um homem de muita luz.

Maria Aparecida Barbosa conviveu com Jair Fonseca como estudante da UFMG e como professores da UFSC.


 

Jair e sua paixão pela sétima arte:

Ewerton Belico | “Um mestre discreto..”

Quando conheci Jair eu já o admirava à distância, ouvinte que era do Último Número. Isso faz décadas, Jair era ainda doutorando, e tínhamos alguns amigos em comum. Lembro de intermináveis conversas sobre sua tese – entre bares e as reuniões do forumdoc.bh – sobre Glauber, sobre cinema brasileiro, sobre poesia, música, as mil aventuras das turnês de sua banda.

A despeito de sua enorme e brilhante obra escrita, entre poesia e crítica, Jair era mesmo um mestre quando conversava, e com essa capacidade de juntar erudição e mundanidade, formou mais de uma geração de intelectuais e artistas em mais de uma cidade. 

Um mestre discreto, que fará falta para outros vários jovens que, como eu, aprenderam tanto sobre o Brasil com ele.

Ewerton Belico é diretor, roteirista e curador.

Fotografia cedida por Cláudia Mesquita.

Cláudia Mesquita | “…do jeito dadivoso como sugeria caminhos, aos estudantes e amigos, por entre imagens e palavras.”

Conheci Jair no começo dos anos 2000, através do forumdoc, festival de documentários. Eu já o admirava de longe, desde o final dos anos 1980, quando tive a sorte de vê-lo performar em um show do Último Número.

Em 2002, Jair publicou no catálogo do forumdoc o primeiro de uma série de ensaios fundamentais sobre Glauber Rocha, cujos filmes eram exibidos, ano após ano, nas sessões de encerramento. Câncer, Cabeças Cortadas, A idade da Terra… a cada nova abordagem, ele cruzava com elegância e lucidez informação histórica, referências fílmicas, musicais e literárias, além de enorme sensibilidade para as imagens. E a admiração só crescia.

Em 2007, quando me mudei para Florianópolis, tive a chance de ficar mais perto dele: Jair estava há um ano trabalhando nos cursos de Letras e de Cinema da UFSC, onde eu também fui lecionar. Ambos “desterrados”, como ele gostava de dizer, naquela ilha de invernos longos e chuvosos, sobrava tempo para muita conversa. Jair me hospedou, me ajudou a procurar casa, me apresentou os lugares e as pessoas de que gostava…

Descobri que aquele homem esguio e discreto, cuja erudição eu já conhecia dos textos, era tão generoso quanto sua escrita, que releio agora cheia de saudade. Me lembro do jeito singular como ele pronunciava as palavras, colocando ênfase em algumas delas; das muitas maneiras como Jair enriquecia o cotidiano, salpicando poesia e boas ideias nas conversas mais corriqueiras; do jeito dadivoso como sugeria caminhos, aos estudantes e amigos, por entre imagens e palavras. 

Quando me mudei de volta para BH, ele me mandou uma carta-email, em que citava um verso de Bernanos, que agora tomo de empréstimo com lágrimas nos olhos: “E disseram adeus, cada um do seu lado de uma estrada invisível”.

Cláudia Mesquita é professora e pesquisadora no Departamento de Comunicação Social da UFMG. Integra o coletivo Filmes de Quintal, que organiza o forumdoc.bh.


 

Amizades, afetos e referência artística:

André Rosa | “Em algum lugar do passado”

Nostalgia vem do grego “nóstos” (retorno ao lar) e “algos” (dor ou sofrimento). Não me considero um cara nostálgico, mas tenho muita saudade de um passado muito remoto, que ficou tatuado em minhas lembranças, um tempo feliz, e do qual essa saudade emerge agora, ao falar do Gatto Jair.

Lembro com muito carinho da amizade que nasceu em um pós-show de sua Banda: O Último Número em 1987, na rua: Levindo Lopes, na Savassi.

Naquela noite fria de inverno, ficamos conversando até as duas da manhã, estava conosco também, meu querido amigo Helbert Coutinho, trocamos telefones (fixos na época) e o convidei para aparecer no bar do meu pai, em que eu trabalhava no bairro Cachoeirinha.

Um belo dia ele apareceu por lá, e ficamos horas conversando sobre música, cinema, sobre O Strip-Tease da Alma, seu disco que acabara de ser lançado. Alguns encontros aqui e ali, “Bat” papos até as duas da manhã, até uma fila de cinema em 1988, sem querer, para ver o Filme: A Insustentável Leveza do Ser, e aí é claro, nova madrugada adentro (dia de semana).

Em 2003 eu escrevia uma coluna sobre cinema, chamada “Na Boa…”, para um jornal que não existe mais, naquela ocasião, eu escrevi sobre um dos melhores filmes que vi na vida: Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, do genial diretor Tim Burton, e esse jornal acabou parando nas mãos do Jair em uma corrida de táxi, que identificou minha foto no cabeçalho da coluna. Ele me ligou no último telefone fixo que eu tive e foram horas conversando sobre o filme, Tim Burton e sobre como estava a nossa vida naquele ano de 2003…

Ficamos de nos encontrar mais vezes, mas o tempo e vida se incumbiram de atrapalhar nosso plano, fica pra próxima vida… Um dia amigo, a gente vai se encontrar.

André Rosa é produtor musical e escritor. É fundador do programa Papo Destilado, canal no Youtube e autor do livro “Saudosos anos 80” (2017), pela editora Ramalhete — obra na qual o Gatto Jair e O Último Número são afetuosamente citados.

Cesco Napoli | “Era alguém que deixava marcas rápidas e profundas.” 

O Gato Jair já era uma espécie de mito pra mim antes mesmo de eu conhecê-lo. Na Belo Horizonte dos anos 80, ele ocupava esse lugar raro dos artistas que pareciam já pertencer ao Olimpo, aquele território onde a história da música da cidade começava a ser escrita de maneira definitiva. Ter um vinil naquela época já carregava um peso simbólico enorme, e o Gato fazia parte disso.

Depois, por meio do Marcelo Dolabela, tive a chance de conhecê-lo de perto. Participamos juntos do festival Work in Progress e ali pude tocar com ele e desenvolver uma amizade talvez não tão frequente, mas sempre intensa e densa nas trocas. Era alguém que deixava marcas rápidas e profundas.

Lembro de encontrá-lo num carnaval em Belo Horizonte, quando ele vinha do Sul, e lembro também da reverência com que a Leca Kangussu falava dele. Minha professora querida sempre ressaltava, com muito carinho, a força da escrita e da presença artística do Gato Jair.

Esse era o nosso Gato: uma figura absolutamente singular. Talvez o Renato Russo mais russo, menos Morrissey e mais nato!

Cesco Napoli é professor, multiartista, integrante da formação atual do grupo Divergência Socialista.

Dáblio Slama | “Quando descobri seu trabalho, em 1986, eu tinha 15 anos. Foi nessa época que entendi que a música podia pensar, ferir e deslocar.

O Jair, para mim, nunca foi apenas uma referência distante — nos raros encontros e bons papos que tivemos a oportunidade de compartilhar, havia sempre a sensação de estar diante de alguém que vivia a arte com uma honestidade essencial.
Com O Último Número, ele fez da canção um território onde literatura e ruído se reconciliavam.
Havia, em sua escrita, uma estranha lucidez diante do abismo — como se a palavra fosse, ao mesmo tempo, matéria e vertigem.
Quando descobri seu trabalho, em 1986, eu tinha 15 anos. Foi nessa época que entendi que a música podia pensar, ferir e deslocar.
Ele não cantava para agradar, mas para revelar.
Isso atravessou diretamente minha trajetória, sobretudo na recusa ao óbvio e na busca por verdade.
Carrego dele a ideia de que compor é um gesto filosófico, quase um enfrentamento do real.
Sua partida recente não silencia — ao contrário, amplia sua presença.
Artistas assim não terminam: reverberam.
E, em cada gesto criativo que faço, ainda escuto nosso diálogo.

Dáblio Slama é músico, fundador da banda post-punk !Slama.

Dalva Guimarães | “…homem de serenidade rara, parece que nasceu com o dom de tornar o mundo mais leve.

Conheci Jair há pouco menos de uma década, quando ele começou a se relacionar com minha filha Kellen e a frequentar os lares da nossa família. Foi num aniversário meu, no calor das festas juninas, que ele nos conheceu. Mas foram principalmente as férias de julho e o fim de ano que tornaram os encontros mais frequentes. Os cafezinhos da tarde, em minha casa, deixaram boas lembranças. Ele amava os bolinhos de chuva que eu preparava.

Lembro-me de um fato engraçado, porém terno: no Natal de 2019, quando Jair se vestiu de Papai Noel e, com seu jeitinho, arrancou sorrisos das minhas netas, genros e filhas. Num outro Natal, minha mãe, já com mais de 90 anos, também se encantou por Jair. Não há um dia em que vou à sua casa que ela deixe de perguntar por ele

Jair foi genro querido e seguiu sendo amigo. Tinha alma de artista e coração de paz.

Foi um homem de serenidade rara, parece que nasceu com o dom de tornar o mundo mais leve.

Nas canções, tirava melodia da vida. No papel, transformava o cotidiano em esperança. Na sala de aula, imagino que ensinava com a mesma calma com que vivia.

Nos dias difíceis, repetia a lição que hoje guardamos:

“Preocupe-se só com o necessário.”

Agora, com sua ausência, só tenho a dizer: mesmo em silêncio, ele nos falou. Mesmo sem estar, ele nos move para as coisas do bem, da paz e do humanismo.

Descanse, Jair. O palco agora é outro, sem limites.

Obrigado, amigo, por cada verso, cada nota, cada exemplo.

Sua história não termina , ela vira herança!

Para sempre lembrado. Para sempre querido.

Dalva Guimarães foi servidora da FHEMIG e ativista pelas causas socioambientais junto com o GESTA (UFMG).

Fernando Remo Júnior | “Uma verve poética única…

Gatto Jair um querido desde os tempos do Estadual Central – anos 70 – Sensível, amoroso, teimoso, charmoso e muito inteligente! Uma verve poética única onde a sensibilidade aliada a ironia o deixava um ser único. E na política um “mepista” de primeira linha. E hoje a sua presença se faz nos discos do Último Número, nos poemas guardados no coração. Tiailiviu Gatto.

Fernando Remo Júnior (Fernandão) é sociólogo, 69 de vida e 52 anos do encontro com o Gatto Jair.

Robert Frank | ele segue vivo dentro de nós e em seu trabalho que segue ressoando eterno.” 

O Último Número habitou e ajudou a moldar meu universo adolescente dos anos 90, quando eu ainda me descobria e começava a arquitetar a estética sonora de minha banda Pelos (na época ainda Pelos de Cachorro). Assisti o que acredito ter sido o último show no Matriz, no início dos anos 2000, e anos depois – eu e Jair nos aproximamos via rede social, sempre trocando sobre cinema, música e afins. 

Um tempo depois nos assistiu tocar no Cine Brasil e emocionado me falou do que quanto tinha gostado do show, foi quando pude dizer o quanto dele havia naquele trabalho e firmando assim uma leve e boa amizade de admiração mútua. 

Despedir do Jair me faz sentir com tristeza parte da minha trajetória se apagar mas ao mesmo tempo uma sensação de levá-lo um tanto mais comigo agora. E é isso, “Vita Brevis “, mas ele segue vivo dentro de nós e em seu trabalho que segue ressoando eterno. Sobretudo preciso agradecer por tanto.

Robert Frank. Multiartista, fundador das bandas Pelos e Diplomantas (BH).


 

Imprensa:

Referência do pós-punk de BH, Gatto Jair é homenageado no Santa Tereza: Poeta e cantor, Jair Tadeu da Fonseca foi um dos nomes centrais da transição entre a poesia marginal e o pós-punk na capital mineira. Por Lucas Lanna Resende. Estado de Minas (leia aqui)

Gato Jair foi destaque do rock independente na Belo Horizonte dos anos 1980: Músico fundou a banda pós-punk O Último Número com John Ulhoa, do Pato Fu. Foi poeta, letrista, professor de literatura e cancionista. Por Claudinei Queiroz. Folha de São Paulo (leia aqui)


 

Jair Tadeu da Fonseca foi incentivador e colaborador do site e da revista Tantas-Folhas

Conheça sua autoria aqui, clicando em: Jair Tadeu Fonseca, autor em TANTAS-FOLHAS

Para visitar os artigos e outras participações de Jair neste site, basta também clicar nos links:

Roberto Soares – Vida de poeta

Glauber Rocha e a poesia concreta: Poetamenos, poeta-a-mais

Revolta Urbana – Mais rápido que um Flash

30 discos lançados em BH, nos últimos 20 anos | Enquete


 

Algumas fotografias e imagens | Para ampliar e visualizar legendas, clique no slide:

Em breve estarão disponíveis para visualização as fotografias gentilmente cedidas por Cecé Castelo, Celina Lage, Fabiana Figueiredo, Marcelo Pinheiro, Regina Brito e pelo acervo de Marcelo Dolabela (Regina Guerra). Outras fotografias e imagens poderão ser incorporadas ao Acervo de Referências, conforme autorização de autoria.

 

 

Organização e edição |  Kellen Guimarães é bibliotecária, pesquisadora e editora de Tantas-Folhas.


Os textos enviados para esta publicação são de inteira responsabilidade de seus autores, e estão em seu estado in natura por expressarem opiniões e afetos in memoriam.

Esta página é parte integrante do Acervo de Referência / Memorial / Memorial | Jair Tadeu da Fonseca (Gatto Jair), localizado (em breve!) no menu do site Tantas-Folhas. Estará sob revisão, atualização e reclassificação das informações, conforme evolução e necessidade.

Se você deseja compartilhar seu depoimento, uma fotografia ou prestar sua homenagem ao Jair, o Gatto Jair, entre em contato conosco pelo e-mail revistatantasfolhas@gmail.com e ajude-nos a enriquecer este acervo.

Apoie o  trabalho editorial independente de Tantas-Folhas curtindo e interagindo também em nossas páginas:

Tantas-Folhas no instagram

Tantas-Folhas no Facebook

Tantas-folhas: Partenon Cultural da Palavra

Revista Tantas-Folhas
ISSN [nº em processo de registro]  (eletrônica)

Todo o conteúdo deste site está licenciado pela Atribuição – Não comercial 4.0 da Licença Creative Commons, salvo para casos específicos mencionados no rodapé do texto e conteúdos reproduzidos de outras fontes. Ver Políticas de uso.

 

Comentários