O rato e a montanha – Antonio Gramsci

O rato e a montanha: uma história para ser lembrada todos os dias
Talvez nunca tenham sido publicados tantos livros de literatura infantojuvenis no Brasil como atualmente. Aparentemente, o mercado editorial anda aquecido. O número de editoras chamadas de alternativas aumentou muito. Curiosamente, num país onde a leitura é escassa, há abertura de novas livrarias, sobretudo em São Paulo.
Ao lado dessas mudanças, também têm surgido muitos poetas e escritores. Acompanhar essa produção é impossível. Além dos temas, as produções ficaram mais sofisticadas, com projetos gráficos mais ousados, e com melhores acabamentos tanto nos tipos de papéis quanto nos formatos.
…a leitura crítica sobre livros infantis raramente aparece na imprensa.
De outro modo, a leitura crítica sobre livros infantis raramente aparece na imprensa. Ela fica praticamente restrita às faculdades de Educação ou de Letras, em revistas e sites. Jornais impressos, e mesmo os dispositivos on-line, não têm cadernos voltados à infância. Afora isso, há de se perguntar: quantos pais e mães saem com os filhos, hoje, para passear numa livraria?
Novas livrarias têm surgido, voltadas totalmente ao público infantil em Belo Horizonte, como a Aluá, em Santa Tereza, e a livraria e editora Aletria, na região da Savassi. Já as tradicionais, normalmente, deixam um cantinho aos livros dessa área.
A propósito, estive na inauguração da Casa Marx, e encontrei um livro que já me interessava há muito tempo, mas sobre o qual queria ter um motivo a mais para adquiri-lo. Ontem, concretizou-se. O livro O rato e a montanha é a adaptação de uma história de tradição oral conhecida na região de Sardenha, Itália, realizada pelo filósofo italiano Antonio Gramsci.

O autor se encontrava preso, e a maneira de amenizar seu sofrimento, e das crianças, era trazer alguma esperança, e, mais do que isso, consciência dos valores humanos na troca, mesmo que, no primeiro momento, os filhos não compreendessem. A mensagem, porém, estava transmitida, digamos, “de pai para filho”.
Com belíssimas ilustrações da artista Laia Doménech, ilustradora de A fila dos sonhos, obra tão essencial quanto a de Gramsci, o livro começa com as imagens, e só aos poucos o texto aparece, como se ali, no antes, já haveria descobertas a fazer. E, realmente, há. Imagens conversam sem palavras.

Para não descortinar a história – que é atemporal e muito necessária aos dias atuais –, convido crianças e adultos a adentrar o mundo das conversas entre um ratinho e todos que vão aparecendo em seu caminho. Aliás, fica o convite para que os pais leiam para seus filhos, como pedido por Gramsci a sua companheira: que ela narrasse esta breve e tocante história aos dois filhos.
Se, no mundo atual, há um individualismo exacerbado, histórias como essa, talvez, possam ser delicadamente úteis para tentarmos salvar o planeta Terra.
O rato e a montanha é uma história cuja mensagem é tão verdadeira que, mesmo com o passar anos, continua a nos comover. Se, há tempos, ganhou as páginas do livro, a verdade é que, provavelmente, a presença da tradição oral a fez ultrapassar qualquer época. Se, no mundo atual, há um individualismo exacerbado, histórias como essa, talvez, possam ser delicadamente úteis para tentarmos salvar o planeta Terra. A cooperação deverá vir de todos e todas.
Algumas páginas do livro. Clique na imagem para ampliá-la:
Trecho de uma carta de Gramsci para seu filho
Dulio querido,
Gostei do teu cantinho vivo com pássaros e peixinhos. Se os pássaros escapam às vezes da gaiolinha, não deves agarrá-los pelas asas ou pelas patas, que são delicadas e podem quebrar ou luxar, é preciso empunhá-los pelo corpo todo, sem apertar.
Eu, quando menino, criei muitos pássaros e também outros animais: falcões, corujas, cucos, garças, gralhas, pintassilgos, tentilhões, andorinhas; criei uma cobrinha, uma doninha, ouriços, tartarugas. Agora te conto como vi os ouriços fazerem colheita de maçãs. Uma noite de outubro, quando já estava escuro, mas esplendia luminosa a lua, fui com outro menino, meu amigo, a um campo cheio de árvores de fruta, principalmente macieiras. Ficamos escondidos atrás de uma touceira contra o vento.
Eis que de repente saem de cova os ouriços, cinco, dois maiores e três pequeninos. Em fila indiana se dirigiram para as macieiras, rodopiaram pela gramam e depois se puseram a trabalhar, ajudando-se com os focinhos e as patinhas, faziam rolar as maçãs que o vento derrubara das árvores, e as recolhiam em uma clareira bem pertinho uma das outras. Mas as maçãs espalhadas no chão não bastavam; o ouriço maior, de focinho no ar, olhou em volta, escolheu uma árvore muito curva e encarapitou-se nela, seguido de sua mulher.
Os dois pousaram sobre um ramo carregado e começaram a balançar-se ritmicamente; os seus movimentos comunicaram-se ao ramo, que oscilou cada vez mais com bruscos abalos, e muitas maçãs caíram no chão. Reunidas também estas perto das outras, todos os ouriços, grandes e pequenos, se arredondaram, com os espinhos eriçados, e se deitaram sobre os frutos que assim ficavam como que enganchados: alguns tinham poucas maçãs espetadas (os ouricinhos), mas o pai e a mãe conseguiram enfiar sete ou oito maçãs cada um.
E enquanto estavam voltando para sua cova, nós saímos do esconderijo, apanhamos os ouriços com um saquinho e os levamos para casa. Eu consegui o pai e dois filhotes e os criei por muitos meses, livres, no quintal; eles davam caça a todos os bichinhos, baratas, besourinhos e comiam frutas e folhas de verdura. Gostavam mais das folhas frescas e assim pude domesticá-los um pouco; não se embolotavam mais quando viam as pessoas.
(…) Vou-te escrever, outra vez, sobre o baile das lebres e sobre outros animais: quero-te contar coisas que vi e ouvi quando menino: a história do potrinho, da raposa e do cavalo que tinha rabo só nos dias de festa, a história do pardal e do kulak, do kulak e do burrinho, do pássaro tecelão, do urso, etc.
Te beijo,
Papai
(*) Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo italiano, filiado ao Partido Comunista Italiano, passa os últimos dez anos de sua vida em clínicas de repouso sob regime de liberdade vigiada, escreve febrilmente e deixa quatro mil páginas manuscritas que seriam editadas, depois de sua morte, com o nome de Cadernos do Cárcere e uma assídua correspondência com os familiares, da qual extraímos a presente carta. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/leituras_24mai01.shtml>
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Foto de capa/Wikipédia: Intervenção artística sobre fotografia de Antonio Gramsci.
Conheça a editora Aletria e a livraria Aluá. Disponíveis em: https://www.aletria.com.br/ | https://www.instagram.com/livrariaalua/. Acessos em: 20 out. 2026.
Visite também o perfil do Instagram: @casamarxbh. Disponível em: https://www.instagram.com/casamarxbh/. Acesso em: 20 out. 2026.
Casa Marx Belo Horizonte abre suas portas com mais de 700 pessoas. Matéria disponível em: <https://www.casamarx.com.br/artigos/casa-marx-belo-horizonte-abre-suas-portas-com-mais-de-700-pessoas/>. Acesso em: 20 out. 2026.
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Nascido em São João del-Rei, reside em Belo Horizonte. Graduado em História pela UFOP, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela USP; professor universitário. É autor dos livros: Poemas Pitorescos, 2020, Galileu Edições; Casa, Impressões de Minas, 2020; ABC futebol clube, Ed. Aletria, 2015 (Infantil); Via Férrea, Ed. Cosac Naify, e Formigas, Cosac Naify, 2013 (Infantil); Ouro Preto – poemas, Ed. Scriptum, 2012. Casa, Ed. Impressões de Minas, 2020. Contato: marioalexrosa14@gmail.com


