Maria Lúcia Alvim: “Eu era assim no dia dos meus anos” | Homenagem

Em um de seus tantos belos poemas, Carlos Drummond de Andrade escreveu:
Mas as coisas findas / muito mais que lindas / essas ficarão.
A lembrança desses versos veio tristemente impulsionada pela morte, ontem, 3 de fevereiro de 2021, da poeta Maria Lúcia Alvim. Depois de ficar 40 anos sem publicar, no ano passado ela lançou o livro de poemas Batendo Pasto, pela editora Relicário, de Belo Horizonte. Na véspera de sua morte, o poeta Mário Alex Rosa publicou em Tantas-Folhas uma resenha em que destacou dois lançamentos: Mallarmagem, poemas de Mallarmé, traduzidos por Augusto de Campos, e a recente edição do livro de Maria Lúcia Alvim.
No primeiro parágrafo, Mário Alex Rosa escreveu em tom premonitório: “Nesses tempos turvos com tantas perdas de pessoas no mundo em tão pouco tempo fica difícil comentar e chamar atenção para lançamentos de livros de poesia, falar de projetos diferenciados de editoras novas e com modesta projeção no mercado editorial. É como se os livros fossem somente uma distração, quando sabemos que não são. Mas os livros resistem e eles podem continuar iluminando nossas mãos como livros para sempre. ”
Sobre o livro, ele ressaltou: “Batendo pasto (2020), com esse título aparentemente deslocado para os dias atuais ou até mesmo para a época em que foi escrito (1982), traz uma questão primordial que é a discrepância entre mundo urbano e mundo rural, o quanto nos distanciamos da natureza em prol de um investimento sem escrúpulo para urbanizarmos em todos os sentidos. E nesse ano de 2020 rogamos por uma natureza já muito destruída. Nesse sentido, o livro de Maria Lúcia Alvim é atualíssimo e é necessário ser visitado como quem sabe olhar demoradamente para a natureza como para esse primor de poema: “O amor / do galo e da galinha / ele / bélico / ela / abúlica”. Além de tantos outros poemas de altíssima resolução formal.”
De família em que a poesia criou raízes e frutificou, Maria Lúcia Alvim tem dois irmãos também poetas, Maria Ângela Alvim (1926-1959) e Francisco Alvim (1938). Em sua curta vida, Maria Ângela publicou apenas um livro, Superfície, com 28 poemas. Francisco Alvim tem quatro livros publicados: Passatempo (1974), Elefante (2000), Poemas (2004) e O metro nenhum: poemas (2009). Maria Lúcia Alvim publicou mais cincos livros: XX sonetos (1959), Pose (1968), Coração incólume (1968), Romanceiro de dona Bêja (1979) e A rosa malvada (1980).
Três poemas de Maria Lúcia Alvim.
II. Cantiga de roda
Eu era assim no dia dos meus anos
E quando me casei, eu era assim
Eu era assim na roda dos enganos
E quando me apartei, eu era assim
Eu era assim caçula dos arcanos
E quando me sovei, eu era assim
Eu era assim na voz dos minuanos
E pela primavera, eu era assim
Enquanto fui viúva, eu era assim
Enquanto fui vadia, eu era assim
E pela cor furtiva, eu era assim
No amor que tu me deste, eu era assim
E trás da lua cheia, eu era assim
E quando fui caveira, eu era assim
(Batendo pasto, 2020)
XIV
Quisera tanto que durasse
qualquer desejo em qualquer dia
que mesmo sendo em demasia
eu deles nunca me fartasse;
assim enquanto não houvesse
nada mais que vos sugerisse
então que a vida ressurgisse
e só desejos refizesse;
porque deixei vossa verdade
ó coisas já feitas de espera
quando sempre tudo soubera
tão cheio de realidade;
pois bem sei que ando consumida
mas por desejos que são vida.
(XX Sonetos, 1959)
Aquele que um dia fará o meu caixão
Aquele que um dia fará o meu caixão
de antemão tem as medidas:
menina-carapina
surrupiando
Viu crescer, prometer, viu sazonar.
Quando o roxo dos ipês configurou-se
no horizonte
aquele que fará o meu caixão
numa cestinha depôs amor
e morte
Lasca por lasca
fava por fava
fui pedindo, fui rasgando, fui doando
lóbulo mindinho
esses rajados de pele, esses crestados
o estalido da cabiúna
O galo alvorescente
dourou
(Batendo pasto, 2020)
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