TANTAS-FOLHAS
Darcy Ribeiro

Darcy Ribeiro e o sonho de uma educação de qualidade para todos


Foto: Fundação Darcy Ribeiro.

Darcy e suas peles

Houve no Rio de Janeiro uma experiência inovadora que oferecia às crianças e jovens menos favorecidos, uma educação de qualidade – os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). Este projeto, idealizado por Darcy Ribeiro, baseava-se em uma visão ampla de educação, vista como formadora de cidadania. Foram oito anos de trabalho bem-sucedido que, no entanto, não teve continuidade. O artigo conta um pouco dessa experiência, do ponto de vista de quem participou de um dos projetos mais bonitos e eficientes na área de Educação.

Darcy foi um homem singular. Intelectual de primeira grandeza. Aliava pensamento e prática, o que é raro. Em sua vida, como ele mesmo dizia, teve “muitas peles” que possibilitaram uma trajetória cheia de realizações em diversas áreas. Iniciou sua vida profissional dedicando-se à antropologia, criando o Parque Nacional do Xingu e o Museu do Índio. Em sua atuação política, ocupou muitos cargos, entre eles, os de ministro, senador, vice-governador do Estado do Rio de Janeiro e, também, assessor do presidente Salvador Allende, no Chile, e de Velasco Alvarado, no Peru. Como “fazedor”, realizou muitas obras como a Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro, a Casa França Brasil, o Sambódromo e o Memorial da América Latina.

Na pele de intelectual, coroou sua vida riquíssima nos legando obras de antropologia, pedagogia, ensaios, romances, literatura infantil e, aos setenta anos, arriscou-se na poesia. Quem sou eu, septuagenário / Que esgoto meu tempo de me ser aqui? / Insciente, perplexo, inexplicado. / Só cheio de saudades de mim. / De tantos eus que fui. Sidos. Idos. / Somos descartáveis, sei, mas dói.

Na educação, construiu a Universidade de Brasília (UNB) e colaborou com programas de reforma universitária na América Latina.  Recebeu o título de doutor Honoris Causa da Universidade de Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade do Uruguai, da Universidade da Venezuela e da Universidade de Brasília. Foi também o idealizador dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), experiência única na educação brasileira.

A influência de Anísio Teixeira

Darcy Ribeiro

O Darcy educador teve forte influência de Anísio Teixeira, quem considerava como seu modelo de filósofo educador. Foram grandes amigos e parceiros na crença de que apenas a educação pública, laica, obrigatória, gratuita e de qualidade poderia criar um Brasil melhor, formado por cidadãos críticos. Darcy não se constrangia ao afirmar, em seu livro “Confissões”, que:  “Anísio me ensinou a pensar”.

Anísio Teixeira foi uma figura ímpar na educação do século XX. Desde jovem participou ativamente na defesa da educação, tendo sido um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, em defesa da escola pública. Criou a Universidade do Distrito Federal três anos mais tarde. Criou, ainda, o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, ou Escola Parque, em Salvador. Uma instituição inovadora, pensada em tempo integral e idealizada para formar cidadãos. Oferecia, além das atividades tradicionais, biblioteca, teatro, cursos profissionalizantes, entre muitas outras atividades. Anísio sabia da importância dos professores, para quem dedicou atenção especial.  Esta experiência influenciou outras, incluindo os CIEPs e os Centros Integrados de Atendimento à Criança (CIACs) décadas mais tarde, como veremos adiante.

O encontro de Darcy com Anísio foi profícuo e duradouro. Tornaram-se parceiros na luta pela Lei de Diretrizes e Bases (1961) e do I Plano Nacional da Educação. Trabalharam juntos no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) e na construção da Universidade de Brasília, da qual foram reitores. Darcy legou a reitoria a Anísio para assumir o Ministério da Educação e depois a Chefia de Gabinete do Governo João Goulart. De lá cuidava para que o projeto funcionasse como planejado por ambos. A UnB representou uma nova perspectiva na difusão do conhecimento, oferecendo cursos de graduação, mestrado e doutorado que eram ministrados por mais de duzentos professores provenientes de diversos países e áreas de estudo. Porém, a grandeza do projeto sofreu um grande revés com a queda de João Goulart, em 1964.

Darcy, no exílio, viu ruir o projeto que desenharam em conjunto.  Darcy comunicava-se por meio de correspondência com Anísio, contando sobre sua vida e suas aflições com a situação do país. São cartas repletas de afeto, onde Darcy lamentava a distância forçada:  “Quando nos veremos? Me faz falta enorme não o ter próximo para aquelas nossas conversas”. Anísio morre em 1971, mas sua influência continuará viva na educação brasileira.

Na tentativa de entender por que projetos tão bons e inovadores capitaneados por Anísio foram constantemente interrompidos, Darcy aponta como causa a formação de nossa sociedade, que não demonstra preocupação com as classes menos favorecidas. Segundo ele:

É uma coisa que sempre cogito, que sempre estou me perguntando, como é que o Brasil conseguiu ser tão ruim em educação e continua sendo tão ruim em educação? A única explicação que tenho é que é um defeito da nossa classe dominante. A nossa sociedade é uma sociedade enferma de desigualdades, suponho que a causa básica está em que somos descendentes dos senhores de escravos, fomos o último país do mundo, nós e Cuba, a acabar com a escravidão e a escravidão cria um tipo de senhorialidade que se autodignifica, que se acha branca, bonita, civilizada, come bem, é requintada, mas que tem ódio do povo, trata o povo como carvão para queimar. Então, na realidade, é uma classe dominante de filhos de senhores de escravos que vê o povo como a coisa mais reles, não tem interesse em educar o povo e também não tem interesse em que o povo coma. (Ribeiro, 2002, p.66-67).

O projeto dos CIEPs

Darcy Ribeiro

Alguns anos depois de voltar do exílio, Darcy é eleito vice-governador do Rio de Janeiro e põe em prática um dos mais ambiciosos projetos educacionais do Brasil, os CIEPS. O sonho dos dois amigos agora se concretizava na arquitetura de Oscar Niemeyer e em um projeto pedagógico arrojado, seguindo os preceitos de escola pública, laica, gratuita e de tempo integral.

O projeto teve como objetivo oferecer às crianças uma educação de qualidade que transcendia os bancos escolares, agregando atividades culturais e esportivas, acompanhamento médico e odontológico, com refeições balanceadas e saborosas, professoras capacitadas, equipamentos modernos, princípios de higiene e acesso aos livros. Para as crianças sozinhas existiam os “pais sociais”.  Era uma revolução. Para Darcy, uma escola “comum, ordinária, de todo o mundo civilizado” (RIBEIRO, Balanço, p.19), porém, dentro da realidade brasileira:

Ao invés de escamotear a dura realidade em que vive a maioria de seus alunos, proveniente dos segmentos sociais mais pobres, o CIEP compromete-se com ela para poder transformá-la. É inviável educar crianças desnutridas? Então o CIEP supre as necessidades alimentares dos seus alunos. A maioria dos alunos não tem recursos financeiros? Então o CIEP fornece gratuitamente os uniformes e o material escolar necessário. Os alunos estão expostos a doenças infecciosas, estão com problemas dentários ou apresentam deficiência visual ou auditiva? Então o CIEP proporciona a todos eles assistência médica e odontológica. (RIBEIRO, 1994, p. 14)

Os CIEPs se espalharam pelo estado do Rio de Janeiro somando, no final do segundo mandato do governador Leonel Brizola, 507 instituições, incluindo a escola do Sambódromo e o Centro Infantil de Cultura, em Ipanema. Atendiam a 1.000 crianças e jovens, sendo 700 em cursos diurnos e 300 em cursos noturnos.

Darcy Ribeiro

Para que o projeto fosse bem-sucedido, foram capacitados 24.000 professores e auxiliares de ensino, por meio de convênio com a UERJ. Cabe ressaltar que a maioria dos profissionais que trabalharam nos CIEPs foi selecionada na própria comunidade, o que gerava um vínculo forte entre os alunos e as escolas e desarmavam as desconfianças.

A importância da leitura

Darcy sabia a importância da leitura. Costumava lembrar que os livros fizeram a diferença na sua infância em Montes Claros. Graças a eles, formou sua personalidade criativa e desafiadora. Era um homem dos livros, tanto como leitor quanto como ensaísta e ficcionista.  Legou-nos uma rica bibliografia com obras de antropologia, história, política, educação e romances. Muitos de seus livros tiveram edições em outros países. Darcy afirmava que: “O livro, bem como sabemos, é o tijolo com que se constrói o espírito”.

Um dos pontos fortes dos CIEPS era a biblioteca, que de tão importante, situava-se fora do prédio, com exceção das poucas escolas onde não havia espaço suficiente para a construção externa. Em formato de octógono, despertava interesse em quem a observava. Suas paredes eram cobertas com estantes onde o acervo de mil livros aguardavam seu leitor, que, no caso, não eram apenas os alunos e os professores, mas os pais das crianças, os irmãos, os vizinhos e toda a comunidade. Darcy considerava que a biblioteca, por ser uma instalação cara, não deveria ser utilizada apenas pela escola, mas por todos que quisessem. Com essa medida, Darcy criou bibliotecas híbridas, misto de bibliotecas escolares e públicas. O estado do Rio de Janeiro que possuía, na época, cem bibliotecas públicas, passava a oferecer uma rede de mais quinhentas bibliotecas.

O acervo era composto dos melhores títulos de ficção e de poesia nacionais e estrangeiras, obras de referência, livros de história, geografia e conhecimentos gerais, jornais e revistas e gibis e muita literatura infantil, que eram acrescidos posteriormente com novas aquisições. Algumas críticas recaíram sobre a seleção do acervo por incluir autores de difícil leitura como James Joyce. No entanto, essa ação mostrou-se preconceituosa, pois sempre existiam leitores interessados em Ulisses. Havia também uma estante dedicada à comunidade, onde se encontravam os livros e textos produzidos pela e sobre ela. Oferecia, ainda, serviços e atividades culturais e educacionais, como encontros com autores, varal de leitura, hora do conto. Atuava ainda com outros grupos dos CIEPS, especialmente da saúde e dos animadores culturais, promovendo visitas às comunidades, palestras informativas e cadastro dos artistas da comunidade. A importância da biblioteca no projeto pode ser constatada no depoimento de Bomeny:

Era o polo e comunicação com a comunidade: abrir a biblioteca montar o acervo com livros de interesse local, franquear e disseminar livros dando acesso ao material impresso que compunha o acervo, promover ciclos de palestras orientados para a comunidade com o duplo sentido de conscientizar a população local sobre seus direitos e estimular o gosto pela leitura e a cultura. (BOMENY, 2007, p.49)

A Biblioteca do Estado do Rio de Janeiro

A Biblioteca Pública do Estado (BPERJ), hoje Biblioteca Parque Estadual, é uma instituição centenária, criada em 1873. Em 1984, sofreu um forte incêndio que abalou as antigas estruturas. Foi, então, construído um novo prédio mais amplo e moderno por Darcy, que vislumbrou uma nova função, a de coordenar as atividades das bibliotecas dos CIEPS. Assim, todo o planejamento e a execução dos serviços técnicos, incluindo a aquisição do acervo, além da capacitação das equipes, passaram a ser de responsabilidade da Biblioteca Estadual. Criava-se, assim, um sistema efetivo de bibliotecas no estado.

Ocupando uma área de 10.000 mil metros quadrados, a BPERJ está localizada em um ponto central da cidade do Rio de Janeiro, servido por trem, metrô e linhas de ônibus, o que facilitava o acesso das equipes dos CIEPs. Foi construída no mesmo conceito de pré-moldado e com a maioria do mobiliário similar ao das escolas.

A nova BPERJ adequava-se às tendências de bibliotecas públicas que surgiam no mundo, em especial a Bibliotheque Publique d’Information, do Centro Pompidou, em Paris, oferecendo serviços inovadores para a época, como vídeos e informática.  Neste novo formato de bibliotecas públicas o ponto central é o cidadão. Esta concepção também foi a tônica nas bibliotecas dos CIEPs.

Conclusão

O projeto de prover o Brasil de um sistema de ensino de qualidade para crianças e jovens, sonhado por Darcy Ribeiro, não se realizou de forma duradoura, mas é inegável a importância que representou para a Educação no Brasil.   Durante alguns anos, em um esforço hercúleo funcionou uma rede de escolas e bibliotecas que poderia ter sido o diferencial para a sociedade brasileira. A experiência dos CIEPs comprovou ser possível ampliar para todos, em especial para a parcela majoritária dos grupos menos favorecidos, um ensino de qualidade voltado para a formação de cidadãos bem formados e críticos. Porém, como Darcy vaticinou, ” a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”.

Para os críticos que consideravam os CIEPs um projeto caro, vale lembrar uma conversa entre Brizola e Fernando Henrique Cardoso. FHC reconhecia a importância do projeto, mas o considerava caro para a realidade brasileira. Brizola, então, respondeu que caro é a ignorância. A educação para todos não é um privilégio, é, na verdade, uma das mais importantes funções do Estado, previsto na Constituição. Segundo Darcy “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios. ”

Está provado pela prática em outros países que o investimento em Educação representa o único caminho para a construção de uma Nação mais justa e igualitária. Não há outro. Testemunha que sou da experiência dos CIEPS, posso garantir que a visão de crianças bem alimentadas, educadas, saudáveis e com olhar de esperança no futuro é a certeza que o caminho existe e pode ser acessível para todos.

Meninos brincam em um dos muitos CIEPs. Foto: CartaCapital.

Bibliografias

BOMENY, Helena. Salvar pela escola: Programa especial de educação. Sociologia, problemas e práticas, n. 55, 2007. p. 41-67.

BOMENY, Helena. Vinte anos sem Darcy: impressões e notas. Revista artes de educar, v. 3, n. 2, 2017.

RIBEIRO, Darcy. Balanço crítico de uma experiência educacional. Carta, n. 15, 1995. p. 17-24.

RIBEIRO, Darcy. Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

RIBEIRO, Darcy. Dr. Anísio. Carta: falas, reflexões, memórias. Brasília, n.14, 1995. p.33-36.  http://www.bvanisioteixeira.ufba.br/

RIBEIRO, Darcy. O estado da educação. Carta, n. 12, 1994.  p. 11-22

RIBEIRO, Darcy. Depoimento. In: ANÍSIO em movimento. Brasília: Senado Federal, 2002.  304 p.    p.66-67.

 

O texto é parte integrante da Revista Tantas-Folhas, edição v.2, n.2 (2021)


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Ana Ligia Medeiros

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em convênio com o IBICT. Coordenou a implantação da Biblioteca do Estado do Rio de Janeiro, da qual foi diretora. Organizou as bibliotecas dos CIEPs. É Professora do Programa de Pós-Graduação em Memória e Acervos da Fundação Casa de Rui Barbosa. Foi Diretora do Centro de Memória e Informação (CMI), da Fundação Casa de Rui, Diretora do Centro de Coleções e Serviços ao Leitor (CCSL), da Fundação Biblioteca Nacional, Superintendente de Bibliotecas do Estado do Rio de Janeiro. Vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro. Foi membro do Conselho Diretor da Fundação Nacional do livro Infantil e Juvenil.

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